quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Pepe e a história de uma lenda que ainda hoje vagueia por Belém

Completou-se ontem 100 anos que José Manuel Soares Louro nasceu em Belém. Tinha a alcunha de Pepe e foi o primeiro grande símbolo do Belenenses e do futebol português. Morreu no dia 24 de Outubro de 1931, com 23 anos. Como? Bom, falou-se de crime, de negligência e até de suicídio causado por problemas de amor. A autópsia declarou morte por intoxicação alimentar. A hipótese mais forte está relacionada com distracção da mãe, que deitou na comida soda cáustica em vez de sal.

Viveu os seus 23 anos na Rua do Embaixador, nº 17. Um modesto rés-do-chão onde vive o casal Bárbara e Bernardino. Sabem que moram na antiga casa de Pepe e pouco mais. O funeral foi uma coisa nunca vista em Portugal, segundo recordou a A BOLA Humberto Azevedo, sócio nº 1 do Belenenses. A trágica e comovente morte de Pepe teve impacto tremendo na comunidade de Belém e o facto de ter sido envolta por mistério originou a lenda que ainda hoje vagueia.

Pepe jamais foi esquecido porque representa as profundas raízes do Belenenses, segundo escreveu Homero Serpa numa imperdível reportagem publicada em A BOLA Magazine há mais de 20 anos: Pepe simboliza o velho Belenenses erguido por gente da praia, por homens modestos, que viviam no bairro operário e levaram para o clube a têmpera de quem sabe quanto custa a vida e quanto esforço é preciso para a enfrentar e vencer.» Passaram 77 anos da morte. A lenda mantém-se intocável e fascinante!


Infância

Pepe nasceu em Belém. Na casa onde sempre viveu. Era um normal rapaz da praia de Belém mas desde logo deu indícios de vir a ser craque. Ladino e cheio de vitalidade, o menino Pepe era filho de Julião Soares Gomes e de Maria José da Silva Soares. Pobres mas humildes, os dois trabalhavam no mercado de Belém, onde vendiam hortaliças e fruta que serviam de sustento a Pepe e aos quatro irmãos. «Eu era miuto miúdo mas lembro-me perfeitamente de ir com a minha mãe ao lugar dos pais do Pepe. O mercado ficava mesmo junto ao Campo do Pau de Fio, onde ele começou a jogar. O pai também tinha uma carroça para vender hortaliças porta a porta», recorda Humberto Azevedo, que adianta: «Era de uma família pobre. Toda a gente falava maravilhas dele. E lembro-me de ouvir muita gente dizer que ele seria a salvação da família. Infelizmente não foi...»

A época em que nasceu e cresceu para a adolescência não foi a melhor para o País e em especial para o povo pobre de Lisboa. Dois dias a seguir ao seu nascimento, em 1 de Fevereiro mataram o rei D. Carlos I e o seu primogénito, Luís Filipe, em pleno Terreiro do Paço. Portugal, já então em profunda convulsão política e social, nunca mais teve descanso, embora ainda houvesse tempo para o curtinho reinado de D. Manuel II, último rei de Portugal. Dois anos depois foi implantada a república mas as agruras do povo, especialmente das classes menos favorecidas, continuaram nos anos seguintes numa agonia que juntou instabilidade política, I Guerra Mundial, carências de toda a ordem e miséria nas classes pobres. Foi assim que cresceu Pepe, numa adolescência pobre e com a república a dar os primeiros passos, com Teófilo Braga como 1º presidente da república.


Alcunha e boina


Terá ganho a alcunha de Pepe devido ao facto de andar sempre de boina espanhola, talvez influenciado pela numerosa comunidade galega que residia perto da sua casa. Outro aspecto da influência espanhola é que Pepe em espanhol é diminutivo de José. A boina era, de facto, a sua imagem de marca. Usava-a para jogar futebol, na rua e até no trabalho.



Torneiro de metais

Começou muito cedo a trabalhar numa oficina como torneiro de metais. Mais tarde, aos 19 anos, já jogador, passou a ser operário no Centro de Aviação Naval nas docas do Bom Sucesso – criado pelo belenense Gago Coutinho, que dali partiu para a travessia do Atlântico Sul em 1922 acompanhado por Sacadura Cabral – e aqui deverá ter tido a ajuda de João Luís de Moura, presidente do Belenenses e piloto de aviação naval.

Era ele que ajudava à subsistência da família, pelo seu emprego e por alguns escudos recebidos do Belenenses (às escondidas, devido ao estatuto de amadorismo). Pepe andava a preparar-se para fazer exame para sargento-artífice, à semelhança de César e Augusto Silva, seus colegas no Belém. Até no trabalho Pepe usava o azul da ganga. Era um jovem conhecido por ser talentoso, dedicado, bondoso e generoso, sempre disponível a entrar com dinheiro para casa.


Casa e os campos

Pepe vivia com os pais e quatro irmãos na Rua do Embaixador, nº 17. Uma casa baixinha, daquelas tipicamente de pescador, onde hoje residem Bárbara e Bernardino. «Sei que aqui morou o Pepe. Sei também que foi um grande jogador do Belenenses mas não sei mais nada. Gostava de dar mais indicações mas é tudo o que sei», disse a Dona Bárbara, residente numa casa que já levou muitas remodelações e ficava pertinho do Campo do Pau de Fio e ainda mais próxima das Salésias, que mais tarde vieram a ser baptizadas como Campo José Manuel Soares. Aliás, hoje as abandonadas Salésias são uma caricatura daquilo que foram e a placa toponímica cambada, torta, é retrato fiel do que é o primeiro campo relvado em Portugal.


15 minutos à Belém


Ainda menino, Pepe juntou-se pela primeira vez aos craques da altura, Augusto Silva, César de Matos e Almeida, para jogar com o Benfica. Estávamos no dia 28 de Fevereiro de 1926 no campo das Amoreiras. Pepe com 18 anos jogou a interior-esquerdo. A um quarto de hora do fim do jogo o Belenenses perdia por 1-4. Incrivelmente o Belém acaba por vencer por 5-4, num jogo carregado de magia e emoção e que ainda hoje é recordado pelas gentes azuis.

O golo da vitória foi marcado por Pepe, pois claro! E já numa altura em que se atingia o final da partida. Foi de penalty. Ninguém queria assumir a responsabilidade de converter o castigo. Acácio Rosa, enorme figura do clube, contou há anos como tudo se passou: « Durante 75 minutos só dois jogadores não perderam a fé ante a descrença geral. Augusto Silva – o mais velho – e Pepe – o mais novo. Antes do encontro corriam rumores de que alguns dos nossos jogadores, por desinteligências internas, não jogariam. A Direcção delegou em Augusto Silva plenos poderes para a escolha da equipa. E Augusto Silva escolheu os onze jogadores e para a meia-esquerda foi Pepe! Vinha dos infantis [como se designavam as camadas jovens em geral]… Mas, a um minuto do fim, com o resultado já em 4-4, a vontade indómita de todos e os ataques sucessivos, o adversário comete falta na grande-área. Penalty! Ninguém dos belenenses queria ser o responsável pela execução da falta. Augusto Silva, resolutamente, aponta para o Pepe e diz-lhe: “O penalty marcas tu!” Pepe, envergonhado e receoso, apenas respondeu: “Eu, sr. Augusto?” “Sim, marcas tu!” E Pepe marcou o golo e o Belenenses venceu o Benfica por 5 a 4 para o Campeonato de Lisboa.»



Estreia na Selecção

Embalado pela titularidade no Belenenses, Pepe estreia-se na Selecção Nacional em 1927. Marca dois golos na vitória sobre a França (4-0), depois de ter perdido em Toulouse por 2-4. Pepe saiu em ombros, levado pela multidão. Pepe já não era só um herói dos Belenenses, também já era um herói nacional!

Sobre esta estreia escreveu Ricardo Ornelas: «E que desforra e que dois rapazes que se estrearam! Dois Zés Maneis, o Soares, Pepe, e o Martins, o de ponta esquerda – um endiabrado e o outro cheio de boas maneiras. Dividiram os golos: cada um fez dois. Um, o Pepe, foi garoto… Depois do encontro disse que, no segundo dele, palavra de honra que não queria mandar a bola à baliza; ia só a fazer uma passagem… Não importa nada, claro, que a crítica tivesse considerado o golo uma maravilha de execução.»

No ano seguinte Pepe integrou a equipa portuguesa que foi aos Jogos Olímpicos de Amesterdão-1928. A equipa comandada por Cândido de Oliveira perdeu nos quartos-de-final com o Egipto, por 1-2.



Chamada à 1ª equipa

A entrada de Pepe na 1ª equipa do Belenenses foi devida a exigência de Artur José Pereira, primeiro presidente da história do Belenenses, segundo contou Joaquim Dias, também ele um dos sócios fundadores, numa entrevista ao Jornal do Belenenses.

«Artur José Pereira, depois de aturada conversa comigo, na altura tesoureiro do clube, deliberou tomar tal decisão [de incluir o Pepe na 1ª categoria], apesar do receio que tinha em que a massa associativa não gostasse, devido à pouca idade do inesquecível atleta.»

A verdade é que foi mais uma aposta ganha pelo então presidente azul, pois ajudou a formar tantos outros jogadores até finais dos anos 30. Pepe fez 140 jogos, apontou mais de 100 golos com a camisola do Belenenses e da Selecção Nacional.


Análise de Severiano Correia

Não teria mais de 1,70 metros. Pesava pouco. Tinha um corpo franzino. E era conhecido pela sua forma irreverente de estar na vida e em campo. Severiano Correia, antigo treinador, fez há vários anos um retrato das características de Pepe. «Era, de facto, um jogador extraordinário! Irrequieto e franzino, dentro do rectângulo era um elemento que chamava as atenções do público. Chutador por excelência, de uma combatividade extraordinária, constituía perigo para qualquer defesa, por muito valiosa que fosse. Era o menino mimado das gentes de Belém, de tal modo que nem com uma rosa se lhe poderia bater – expressão do seu mestre Artur José Pereira.»


Cinco anos de «show»


Bastaram cinco anos para Pepe contribuir para o crescimento fulgurante do Belenenses. O clube trocou o Campo do Pau do Fio pelas Salésias, Pepe ajudou à conquista de três Campeonatos de Lisboa, em 1926, 1929 e 1930, e num jogo com o Bom Sucesso marcou 10 dos 11 golos – marca jamais alcançada em provas oficiais… Na época de 1931/32 o Belenenses voltou a sagrar-se campeão de Lisboa mas já sem Pepe. Os jogadores homenagearam-no de fumo negro no braço direito.


Rua, baixo-relevo e mausoléu

José Manuel Soares deu nome a uma rua do Restelo. Fica entre o Estado-Maior das Forças Armadas e a Escola Paula Vicente. Foi inaugurada no dia 2 de Abril de 1993. Homero Serpa fez então um discurso que encheu a cerimónia: «Hoje recordamos nesta homenagem do município um futebolista de qualidade. Pepe serviu o futebol com singeleza do rapazinho moldado, desde a infância, pelo árduo trabalho da oficina e pelas precárias condições de vida, representadas bem pela pobreza do almoço que o levou à morte. Lisboa chorou o artista do futebol. Belém foi atingido por inconsolável desgosto, que esteve na base do inconformismo.»

Mas Pepe, além de um mausoléu no Cemitério da Ajuda, tem ainda um baixo-relevo no Estádio do Restelo. Foi inaugurado a 23 de Setembro de 1932 nas Salésias mas depois trazido para o Restelo no dia 23 de Setembro de 1956, onde se mantém. Aliás, ainda hoje, sempre que visita o Belenenses, o FC Porto coloca uma coroa de flores no monumento. Há até quem suponha que a homenagem se deve ao facto de Pepe ter alguma vez jogado pelo FC Porto. Mas não. Trata-se apenas de um eco distante da adoração de que era alvo em todo o país.


O dia em que Lisboa parou

Pepe morreu às 10.30 do dia 24 de Outubro de 1931 no Hospital da Marinha devido a intoxicação alimentar. A refeição da véspera do dia fatídico da família foi sopa de grão com massa, temperada com entrecosto e chouriço. O efeito do veneno não foi imediato, embora toda a família tivesse ficado indisposta e alguns até tivessem ido ao Hospital São José. No dia seguinte Pepe foi trabalhar e levou uma sandes de chouriço. Deu um pouco a um gato que morreu. Pouco depois Pepe sentiu-se mal e foi de urgência para o hospital. Foi dramática e comovente a forma como Pepe morreu, depois de ter sofrido hemorragias internas. Apesar dos esforços médicos ninguém conseguiu salvá-lo de morte tão dolorosa. Lisboa parou, depois, para ir ao funeral do melhor futebolista português.

Muito se disse e se escreveu na altura. Acidente, crime e suicídio foram as hipóteses avançadas após a morte. Ao que se sabe nunca foram divulgadas as causas da morte de Pepe. A intoxicação alimentar devido a soda cáustica colocada inadvertidamente pela mãe é o mais provável. A mais badalada, mas surgiram outras correntes.

O crime devido a problemas amorosos e suicídio pelas mesmas razões. Hipótese de crime protagonizado por alguma mulher foi a preferida pelos amantes de romances policiais. O Diário de Notícias, pela mão de Belo Redondo, sugestionou crime como a hipótese mais forte.

O título da peça era cativante: O mistério da dama de luto. E porquê? Pepe tinha uma noiva, a Rosa do Carmo, também conhecida como a Rosinha do Pátio, mas também pode ter tido uma amante. E aqui saltou a hipótese de ter havido mão criminosa. O DN contou como foi na câmara-ardente em Belém.

«Chamava-se Celeste, figura simpática da cidade noctívaga. Tinha paixão pelo Benfica e de vermelho muitas vezes aparecia, de madrugada, na leitaria Martins, na Escola Politécnica. Mais forte fora a paixão por Pepe que vira pela 1ª vez no Portugal – França. E por ele se encantou, pelo Belenenses se apaixonou. Na câmara-ardente sentou-se à esquerda da mãe de Pepe, à direita estava Rosa. Existia entre as duas mulheres um abismo e um mistério», escreve o DN, que conta ainda uma cena de ciúmes quando Rosa quis colocar Celeste fora da sala.

O suicídio foi falado mas Pepe era rapaz cheio de vida e com muita vontade de viver. Hipótese excluída!

Carlos Pinhão deslocou-se, em 1978, a Maputo em serviço de reportagem de A BOLA para entrevistar uma das irmãs de Pepe. Não conseguiu. Falou, então, com Lopes dos Santos, que lhe contou sobre a morte. «A mãe do Pepe, por engano, em vez de deitar na comida sal deitou soda cáustica. A dose maior tomou-a o Pepe. Ele era o menino-bonito da casa e a mãe tirou para ele chouriço da panela. Levou-o no pão para comer, lá no Arsenal. Foi mortal, pois o veneno concentrou-se mais na carne, enquanto o resto da família comeu o caldinho», refere Lopes dos Santos.

Sobre o mistério e lenda que se criou Santos opinou: «Para não traumatizar a mãe o caso foi entregue à polícia, que facilmente descobriu tudo, mas António Paulitos, que era inspector de investigação e também grande figura do Benfica, entendeu manter o silêncio. Daí toda a especulação que se seguiu.»




O cortejo fúnebre ligou a Rua de Belém ao Cemitério da Ajuda. Milhares de pessoas quiseram homenagear o jovem ídolo. O comércio de Belém fechou, as lojas e janelas colocaram crepes negros e as feições das pessoas eram fechadas, tristes. Belém estava no mais profundo luto. Uma carroça funerária puxada por duas mulas levava Pepe. O cortejo parou minutos à porta da casa da noiva de Pepe, que ficava na Calçada do Galvão. «Lembro-me de me dizerem que quando o Pepe chegou ao cemitério ainda havia gente na zona dos Pastéis de Belém», recorda Humberto Azevedo, que acrescenta: «Foi o maior funeral em Portugal. Ninguém acreditava que tinha morrido o maior símbolo do futebol português.»

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Ocorreu há 50 anos... (IV)


Era uma tarde fria e cinzenta de Janeiro. O F. C. Porto acabara de golear o Oriental, por 5-0. Dorival Yustrich mandou os seus pupilos agradecer ao público o apoio que este lhes tinha dado.

Todos cumpriram a ordem menos Hernâni, que, se calhar por sentir que não haveria razão para tal, teria dito que não estava para alimentar as «palhaçadas» do treinador, com quem mantinha relações frias e fricções ardentes havia muito. E, só, encaminhou-se para o túnel de acesso aos balneários. Yustrich, furibundo, foi em seu encalço. Altercação!

E, de súbito, houve quem se apercebesse de que, daquela vez, entre Hernâni e Yustrich havia mais que uma azeda troca de palavras. O mineiro segurava o avançado pelo pescoço, com o braço esquerdo, socando-o com o punho direito.

Tentava Hernâni desenvencilhar-se da prisão, distribuindo caneladas, e quando conseguiu, enfim, libertar-se da tenaz do braço esquerdo de Yustrich vibrou-lhe um soco, ferindo-o no sobrolho! Já na cabina, o treinador pegou numa balança, tentando dar com ela no jogador que se rebelara contra o seu nepotismo. O dirigente Dias Leite mandou-o sair.

Yustrich foi suspenso das suas funções, sendo de imediato substituído por José Valle, treinador adjunto. E, surpreendentemente, gerou-se solidariedade brasileira no plantel: Osvaldo Silva, Zuca e Lito passeavam-se pelas ruas do Porto à hora em que decorria o primeiro treino depois do incidente. Só Gastão lá fora. Arrepiariam caminho, depois, pedindo desculpa...


Mas Yustrich tinha adeptos vários no Porto, que chegaram mesmo a arregimentar-se no sentido de se manifestarem nas Antas, com cartazes e tarjas e tarjetas com as letras do seu apoio: «Queremos Yustrich».

...E começou a decorrer o inquérito aos incidentes, sob a responsabilidade de Tamagnini Barbosa.

E, de surpresa em surpresa, a 6 de Fevereiro, 15 dias após os incidentes do túnel, a Direcção do F. C. Porto, presidida por Paulo Pombo, levantou a suspensão de Yustrich e de Hernâni, para, mês e meio depois, já na posse dos dados do inquiridor, afastar, definitivamente, Yustrich do cargo de treinador e multar Hernâni em dois meses de subsídio.

No final do desafio com o Sporting de Braga, o seu último jogo como técnico do F. C. Porto, estranhamente ou talvez não, Yustrich percorreu a pista, acenando ao público com um lenço, ante palmas que estrugiam!

E ficaria a saber-se que entre Agosto de 1957 e 31 de Março de 1958 o clube gastara com o ferrabrás mineiro 717 contos, cerca de 90 contos por mês, estando incluídos nesse montante 135 contos de dívidas contraídas por Yustrich quando da sua primeira estada nas Antas.

Ocorreu há 20 anos... (V)


Os clubes foram ao Ministério de Miguel Cadilhe à procura de diálogo, mas não houve diálogo nenhum. O ministro confirmou que o diploma sobre fiscalidade era para cumprir. E ponto final.





Pinto da Costa tinha anunciado que não se recanditaria. De vários nomes se falaram. De Belmiro de Azevedo, inclusivamente. O empresário disse não e explicou porquê: «Nunca me sujeitaria a comportamentos mais ou menos selvagens.»

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

«Caso» Meyong - Parte I - A FIFA


A FIFA é o organismo que superintende o Futebol a nível mundial. Para o efeito, uma das suas funções consiste em estabelecer o quadro legal em que se desenrola a competição. Esse quadro legal tem aplicação em todos os seus afiliados: Confederações continentais, países através das suas Federações, Ligas de clubes, Clubes e/ou Sociedades Anónimas Desportivas, praticantes (profissionais, amadores ou jovens), e todos os outros agentes que contribuem e participam, de alguma forma, na actividade: empresários, dirigentes, treinadores, médicos, etc...

A FIFA reconhece o direito às entidades gestoras e organizadoras do futebol a nível local, nacional ou internacional de gerirem as competições que organizam. Dando-lhes liberdade para produzirem os seus próprios Regulamentos. Faz apenas três exigências: que submetam esses Regulamentos à apreciação e validação da FIFA; que integrem uma cláusula em que se determina que é obrigatório o cumprimento das normas da própria FIFA; e que transportem especificamente determinadas regras para esses regulamentos.

Tal acontece com a famigerada regra prevista no 3º parágrafo do Artigo 5º do Regulamento sobre o Estatuto e Transferências de Jogadores. A que estipula que um jogador pode ser, no máximo, inscrito por três clubes mas só pode actuar oficialmente por dois. Esta regra foi transposta para o Regulamento de Competições da Federação Portuguesa de Futebol e para o Regulamento de Competições da Liga Portuguesa de Futebol Profissional.

A FIFA, tal como qualquer outra entidade com competências legislativas, não estabelece as regras por divertimento ou livre arbítrio. Elas têm objectivos muito concretos. Esta regra, para muito com falta de significado, também os tem. Pretende abordar duas vertentes: maximizar a verdade desportiva e assegurar estabilidade doas equipas - daí impossibilitar a actuação dos jogadores por mais de dois clubes, estabelecendo com rigor os períodos em que as transferências se podem processar - e minimizar actuações especulativas em torno das transferências de jogadores - daí a limitação de três inscrições.

Podemos, no entanto, questionar: Porquê a possibilidade de contemplar, em forma de Lei, a inscrição de um jogador que esteja impossibilitado de ser utilizado? Resposta: A FIFA não o faz. A FIFA sabe que a decisão de aceitar uma inscrição de um jogador o qualifica automaticamente para ser utilizado. Esta aparente incongruência destina-se a contemplar jogadores que, por qualquer motivo, não tenham sido utilizados por um dos clubes onde esteve anteriormente inscrito. Ou para contemplar as situações excepcionais que o próprio Regulamento suporta, como é o caso de jogadores que tenham actuado em campeonatos com calendários competitivos desfazados.

Então como é que a FIFA determina que não haja subversões a esta regra? Definindo claramente responsabilidades e procedimentos de transferência. Uma transferência internacional só poderá ser efectivada se e quando a Federação onde o jogador actuava enviar para a Federação onde o jogador pretende vir a actuar o Certificado Internacional de Transferência. Este documento certifica que o jogador é transferível, ou seja, que não tem pendente nenhum conflito com o clube onde actuava. Que a rescisão do seu contrato anterior é válida e aceite tanto pelo jogador como pelo clube.

Por forma a que a Federação possa dispôr, oficialmente, de todos os dados relevantes para analisar o processo de inscrição, a FIFA estipulou que ao Certificado Internacional de Transferência se junte um outro documento designado por «passaporte do jogador». Este documento tem toda a informação sobre as suas inscrições, clubes onde actuou, castigos ou suspensões pendentes, multas ou indemnizações a pagar. Toda a informação desde os 12 anos de idade do jogador. Por forma a dar ferramentas suficientes para se analisar se o jogador está em condições de ser utilizado e para proceder ao cálculo, por exemplo, das compensações aos clubes formadores.

A Federação, tendo recebido esta informação, fica obrigada a duas coisas: analisá-la e proceder em conformidade, aceitando ou recusando a inscrição, e enviar para o clube onde o jogador pretende actuar o tal «passaporte», possibilitando ao clube que disponha de toda a informação oficial relevante sobre o seu novo «funcionário».

Após ter decidido sobre a inscrição do jogador a Federação deverá comunicar ao clube directamente (para as competições que organiza) ou indirectamente (via entidade organizadora das competições) o resultado da análise do processo. Comunicando-lhe se o jogador está inscrito (logo, passível de utilização) ou não (justificando os motivos que conduziram à recusa da inscrição).

Ocorreu há 20 anos... (IV)



Sporting vivendo, intensamente, o «caso» Rijkaard, que o empresário Jorge Gonçalves considerava arrumado.




E o Benfica à espera do craque Valdo a quem o Grémio complicava a vida: «Valdo quer briga? Então, vamos ter briga.»

sábado, 19 de janeiro de 2008

Ocorreu há 50 anos... (III)

Na Luz, o F. C. Porto manteve-se em passada firme na luta pelo título, ao ganhar por 3-2. E outra vez um jogo quente, de casos frementes, arbitrado por... Inocêncio Calabote.

O portista Teixeira foi expulso, num lance que suscitou algumas dúvidas. Disse o avançado portista: «Sinceramente, não sei por que fui expulso. A jogada foi viril, mas não bati em ninguém. O Serra cuspiu-me na cara e eu, nesse instante, empurrei-o, perguntando-lhe se isso se fazia. Claro que fiquei indignado, mas não bati nem esbocei essa intenção.»

Replicou Calabote: «Teixeira foi expulso porque bateu na cara do adversário.»

O Benfica não perdeu tudo... Ribeiro dos Reis, na sua condição de presidente da Assembleia Geral, antes da partida procedeu à simbólica cerimónia das enxadas, que abria as obras de construção das torres de iluminação do Estádio da Luz. Um gesto que, pouco depois, um paralítico repetiria - os espectadores esqueceram-se de aplaudir, porque quase todos choravam de emoção. Muitas senhas se venderam. E com isso o Benfica arrecadou 20 contos.

E como o Sporting empatou com a Cuf, que beneficiou de mais dois golos de Arsénio, que valeram a recuperação de 1-3 para 3-3, o F. C. Porto voltou a isolar-se, com 33 pontos, mais um do que o Sporting, mais nove do que o Benfica.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Ocorreu há 50 anos... (II)


Di Pace, um dos maiores jogadores estrangeiros que actuaram em Portugal, após cinco anos no Belenenses afirmou a disposição de regressar à Argentina... mas casado.

Assim aconteceu.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Ocorreu há 20 anos... (III)


Foi para os portistas o remate de ouro na grande saga da conquista do Mundo. Depois da Taça dos Campeões e da Taça Intercontinental, a Supertaça Europeia.

Com 1987 quase a terminar, o primeiro passo, com vitória espectacular em Amesterdão, na noite em que nasceu uma estrela: Rui Barros. Desconcertando.

Dele se disse ser «impossível de travar, como Maradona, mas duas vezes mais rápido.» Um pesadelo na noite fria. Apesar do golo. E da farândola de golos falhados.

Tomislav Ivic apresentou Mlynarczyk; João Pinto, Geraldão, Lima Pereira e Inácio; André; Jaime Magalhães, Rui Barros, Frasco (Quim) e Sousa; Gomes.

O golo de Rui Barros aos 5 minutos abriu caminho para mais uma... taça, mas houve, também, sobretudo, festival de golos perdidos.

Um jornalista holandês, deslumbrado, escreveu: «Parecia uma partida de xadrez entre uma criança de quatro anos e um grande mestre internacional».


A meio de Janeiro a consagração, nas Antas, a euforia nas bancadas, outra vez a vitória, outra vez por 1-0, com golo de Sousa aos 71 minutos.

Desta vez Ivic lançou Mlynarczyk; João Pinto, Geraldão, Lima Pereira e Inácio; Bandeirinha (Semedo) e André; Jaime Magalhães, Rui Barros e Sousa; Gomes (Jorge Plácido).


Aos 69 minutos os festejos e o alarido foram interrompidos, dando lugar a ruidosos protestos, quando Fernando Gomes foi substituído por Jorge Plácido. Em consequência da monumental assobiadela, o dirigente Teles Roxo anunciou a sua demissão.

Ivic exultou: «É um grande feito, este que o F. C. Porto conseguiu, pois até agora apenas a Juventus havia conseguido ganhar tudo. Esta sucessão de êxitos dificilmente será repetida e esta geração portista, com o presidente que tem, é uma geração de ouro.» Sobre a substituição de Gomes, respondeu com candura: «Correra muito, estava muito cansado, não o quis sacrificar mais». Houve quem risse...


Gomes não quis comentar a sinfonia de assobios destinada a Ivic e ironizou: «Foi uma festa bonita, estou muito feliz. Se já penso na minha retirada? Eu sou homem de viver o presente e pouco me preocupar com o futuro, mas tenho um amigo astrólogo que diz que ainda hei-de jogar mais quatro anos...»

Pinto da Costa, depois de dedicar o triunfo a seu filho Alexandre, «o maior portista que eu conheço», ausente das Antas por doença, afiançou: «Esta grande vitória não é só uma vitória do F. C. Porto é uma das mais maravilhosas vitórias de Portugal.»

Silva Resende, na qualidade de vice-presidente da UEFA, exultou: «É uma página de ouro na história do F. C. Porto e do futebol... europeu. Porque o que os portistas alcançaram é inédito na Europa. Temos de estar todos muito orgulhosos por ter uma equipa assim em Portugal».

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Ocorreu há 50 anos... (I)

Dorival Yustrich dispensou José Maria, que pouco depois ingressaria no Benfica.

Chegara ao F. C. Porto em 1950, com a promessa de 15 contos de luvas. Não receberia sequer um tostão. Não se importou.

«Fiquei espantado com a decisão de Yustrich, já que há dois anos dissera, diante de todos os meus colegas, que, limadas umas arestas, teria lugar em qualquer equipa do mundo...»

Rui Costa Dirigente


Rui Costa teve hoje a sua primeira intervenção como dirigente do Benfica.

Merecem destaque duas das suas afirmações:

1 - Que José Veiga não deve cuspir no prato onde comeu;

Ao melhor estilo do actual presidente do Benfica o que quer dizer que as lições que este lhe está a dar para lhe suceder no cargo estão a decorrer a bom ritmo.

2 - Que Katsouranis deve ser reintegrado brevemente e que o grupo de trabalho está unido e forte para abordar o próximo jogo;

Ao melhor estilo de qualquer outro dirigente de futebol deste país.


Estás pronto, Rui! Boa sorte...

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Meyong e Carvalhal

Parece estranha a ligação entre estas duas figuras do futebol nacional? Não é! Existem, até, muitos pontos em comum.


Meyong foi jogador do Belenenses há 2 anos. Foi Carlos Carvalhal quem o levou para o Restelo depois de já ter trabalhado com ele em Setúbal.

Meyong foi o melhor marcador do campeonato português num ano muito conturbado no Belenenses. A demissão de Carvalhal foi o início de um processo traumático liderado por José Couceiro que culminou na descida de divisão. Evitada in-extremis devido ao «Caso Mateus». A única alegria belenense nesse ano foi a conquista do troféu por parte de Meyong.

Meyong regressa agora ao Belenenses e gerou uma onda de expectativas em seu redor.

Da minha parte não peço muito. Só que ele seja uma peça importante na concretização dos objectivos do clube. E que seja feliz.


Felicidade é o que não falta, neste momento, a Carlos Carvalhal. Ultrapassada que parece a fase menos boa da carreira, em que se incluem os insucessos no Restelo, em Braga e Aveiro, este treinador reencontrou-se em Setúbal, onde já tinha sido feliz.

A fazer uma época extraordinária, conta já com 5 jogos disputados frente ao Benfica e Sporting e ainda não perdeu nenhum!!!!

Na luta pela Taça da Liga, em prova na Taça de Portugal, num espantoso 5º lugar da Bwin.

Está de tal forma em grande que a vitória de hoje sobre o Sporting tem de ser encarada como natural por qualquer analista.

Resta-me dizer: que o Meyong tenha tanto sucesso neste regresso a Belém como o Carvalhal está a ter no regresso a Setúbal!

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Ocorreu há 20 anos... (II)

Associação Nacional de Clubes e Governo de candeias às avessas.

A Associação acusou: «O Governo não cumpriu o que prometeu aos clubes e em vez da programada análise conjunta deu-lhes o facto consumado.»

Foi uma das reacções da reunião da ANC ao Decreto-Lei que alterava o Código do Imposto Profissional no que se referia aos agentes desportivos praticantes, especialmente aos da alta competição.

Mas entre os clubes o clima também não era de amizade, como se depreende desta frase de Valentim Loureiro: «O F. C. Porto joga com os ministros, nós, Boavista, nem um presidente de Junta temos.»

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Carlos Freitas abandona

Carlos Freitas anunciou que cessará em breve o exercício de funções na SAD do Sporting.

Será interessante analisar como funcionará o Sporting sem um dos vértices do quadrado que estruturava o seu futebol em conjunto com Filipe Soares Franco, Paulo Bento e Pedro Barbosa.

Será não menos interessante se ficarmos todos a perceber, afinal, o que faz o Pedro Barbosa no seio da estrutura directiva do Sporting.

E, já agora, uma ideia: sendo cada vez mais assumido que ao Benfica falta alguém que possa colmatar a saída do José Veiga; sendo certo que o presidente do Benfica não privilegia o facto de terem de ser benfiquistas os seus mais directos colaboradores; e sendo também um dado praticamente adquirido que o Benfica apresenta graves lacunas no que respeita à comunicação para o exterior, o Carlos Freitas, agora livre de compromissos, poderia ser uma boa aposta para reorganizar o futebol "encarnado".

É só uma ideia...

Ocorreu há 20 anos... (I)

Jorge Gonçalves, ex-campeão nacional de Vela, homem de negócios, de quem muitos sportinguistas não gostavam, mas outros viam nele um presidente desinibido, revelou: «Se tudo correr bem, como eu espero, vou pôr, de novo, as unhas no leão.»

Enquanto o optimista Jorge Gonçalves assim falava, o Ajax chegava a Faro e um dos seus responsáveis avisara: «Rijkaard no Sporting? Faltam cinco milhões de florins.»

Disciplina à moda da Luz


O Benfica já decidiu.

Luisão é perdoado e Katsouranis vê a vida andar para trás.

Parte-se a corda pelo lado mais fraco.

E assim se vai gerindo (com os pés) a melhor equipa da década.