Completou-se ontem 100 anos que José Manuel Soares Louro nasceu em Belém. Tinha a alcunha de Pepe e foi o primeiro grande símbolo do Belenenses e do futebol português. Morreu no dia 24 de Outubro de 1931, com 23 anos. Como? Bom, falou-se de crime, de negligência e até de suicídio causado por problemas de amor. A autópsia declarou morte por intoxicação alimentar. A hipótese mais forte está relacionada com distracção da mãe, que deitou na comida soda cáustica em vez de sal.
Viveu os seus 23 anos na Rua do Embaixador, nº 17. Um modesto rés-do-chão onde vive o casal Bárbara e Bernardino. Sabem que moram na antiga casa de Pepe e pouco mais. O funeral foi uma coisa nunca vista em Portugal, segundo recordou a A BOLA Humberto Azevedo, sócio nº 1 do Belenenses. A trágica e comovente morte de Pepe teve impacto tremendo na comunidade de Belém e o facto de ter sido envolta por mistério originou a lenda que ainda hoje vagueia.
Pepe jamais foi esquecido porque representa as profundas raízes do Belenenses, segundo escreveu Homero Serpa numa imperdível reportagem publicada em A BOLA Magazine há mais de 20 anos: Pepe simboliza o velho Belenenses erguido por gente da praia, por homens modestos, que viviam no bairro operário e levaram para o clube a têmpera de quem sabe quanto custa a vida e quanto esforço é preciso para a enfrentar e vencer.» Passaram 77 anos da morte. A lenda mantém-se intocável e fascinante!
Infância
Pepe nasceu em Belém. Na casa onde sempre viveu. Era um normal rapaz da praia de Belém mas desde logo deu indícios de vir a ser craque. Ladino e cheio de vitalidade, o menino Pepe era filho de Julião Soares Gomes e de Maria José da Silva Soares. Pobres mas humildes, os dois trabalhavam no mercado de Belém, onde vendiam hortaliças e fruta que serviam de sustento a Pepe e aos quatro irmãos. «Eu era miuto miúdo mas lembro-me perfeitamente de ir com a minha mãe ao lugar dos pais do Pepe. O mercado ficava mesmo junto ao Campo do Pau de Fio, onde ele começou a jogar. O pai também tinha uma carroça para vender hortaliças porta a porta», recorda Humberto Azevedo, que adianta: «Era de uma família pobre. Toda a gente falava maravilhas dele. E lembro-me de ouvir muita gente dizer que ele seria a salvação da família. Infelizmente não foi...»
A época em que nasceu e cresceu para a adolescência não foi a melhor para o País e em especial para o povo pobre de Lisboa. Dois dias a seguir ao seu nascimento, em 1 de Fevereiro mataram o rei D. Carlos I e o seu primogénito, Luís Filipe, em pleno Terreiro do Paço. Portugal, já então em profunda convulsão política e social, nunca mais teve descanso, embora ainda houvesse tempo para o curtinho reinado de D. Manuel II, último rei de Portugal. Dois anos depois foi implantada a república mas as agruras do povo, especialmente das classes menos favorecidas, continuaram nos anos seguintes numa agonia que juntou instabilidade política, I Guerra Mundial, carências de toda a ordem e miséria nas classes pobres. Foi assim que cresceu Pepe, numa adolescência pobre e com a república a dar os primeiros passos, com Teófilo Braga como 1º presidente da república.
Alcunha e boina
Terá ganho a alcunha de Pepe devido ao facto de andar sempre de boina espanhola, talvez influenciado pela numerosa comunidade galega que residia perto da sua casa. Outro aspecto da influência espanhola é que Pepe em espanhol é diminutivo de José. A boina era, de facto, a sua imagem de marca. Usava-a para jogar futebol, na rua e até no trabalho.
Torneiro de metais
Começou muito cedo a trabalhar numa oficina como torneiro de metais. Mais tarde, aos 19 anos, já jogador, passou a ser operário no Centro de Aviação Naval nas docas do Bom Sucesso – criado pelo belenense Gago Coutinho, que dali partiu para a travessia do Atlântico Sul em 1922 acompanhado por Sacadura Cabral – e aqui deverá ter tido a ajuda de João Luís de Moura, presidente do Belenenses e piloto de aviação naval.
Era ele que ajudava à subsistência da família, pelo seu emprego e por alguns escudos recebidos do Belenenses (às escondidas, devido ao estatuto de amadorismo). Pepe andava a preparar-se para fazer exame para sargento-artífice, à semelhança de César e Augusto Silva, seus colegas no Belém. Até no trabalho Pepe usava o azul da ganga. Era um jovem conhecido por ser talentoso, dedicado, bondoso e generoso, sempre disponível a entrar com dinheiro para casa.
Casa e os campos
15 minutos à Belém
Ainda menino, Pepe juntou-se pela primeira vez aos craques da altura, Augusto Silva, César de Matos e Almeida, para jogar com o Benfica. Estávamos no dia 28 de Fevereiro de 1926 no campo das Amoreiras. Pepe com 18 anos jogou a interior-esquerdo. A um quarto de hora do fim do jogo o Belenenses perdia por 1-4. Incrivelmente o Belém acaba por vencer por 5-4, num jogo carregado de magia e emoção e que ainda hoje é recordado pelas gentes azuis.
O golo da vitória foi marcado por Pepe, pois claro! E já numa altura em que se atingia o final da partida. Foi de penalty. Ninguém queria assumir a responsabilidade de converter o castigo. Acácio Rosa, enorme figura do clube, contou há anos como tudo se passou: « Durante 75 minutos só dois jogadores não perderam a fé ante a descrença geral. Augusto Silva – o mais velho – e Pepe – o mais novo. Antes do encontro corriam rumores de que alguns dos nossos jogadores, por desinteligências internas, não jogariam. A Direcção delegou em Augusto Silva plenos poderes para a escolha da equipa. E Augusto Silva escolheu os onze jogadores e para a meia-esquerda foi Pepe! Vinha dos infantis [como se designavam as camadas jovens em geral]… Mas, a um minuto do fim, com o resultado já em 4-4, a vontade indómita de todos e os ataques sucessivos, o adversário comete falta na grande-área. Penalty! Ninguém dos belenenses queria ser o responsável pela execução da falta. Augusto Silva, resolutamente, aponta para o Pepe e diz-lhe: “O penalty marcas tu!” Pepe, envergonhado e receoso, apenas respondeu: “Eu, sr. Augusto?” “Sim, marcas tu!” E Pepe marcou o golo e o Belenenses venceu o Benfica por 5 a 4 para o Campeonato de Lisboa.»
Estreia na Selecção
Embalado pela titularidade no Belenenses, Pepe estreia-se na Selecção Nacional em 1927. Marca dois golos na vitória sobre a França (4-0), depois de ter perdido em Toulouse por 2-4. Pepe saiu em ombros, levado pela multidão. Pepe já não era só um herói dos Belenenses, também já era um herói nacional!
Sobre esta estreia escreveu Ricardo Ornelas: «E que desforra e que dois rapazes que se estrearam! Dois Zés Maneis, o Soares, Pepe, e o Martins, o de ponta esquerda – um endiabrado e o outro cheio de boas maneiras. Dividiram os golos: cada um fez dois. Um, o Pepe, foi garoto… Depois do encontro disse que, no segundo dele, palavra de honra que não queria mandar a bola à baliza; ia só a fazer uma passagem… Não importa nada, claro, que a crítica tivesse considerado o golo uma maravilha de execução.»
No ano seguinte Pepe integrou a equipa portuguesa que foi aos Jogos Olímpicos de Amesterdão-1928. A equipa comandada por Cândido de Oliveira perdeu nos quartos-de-final com o Egipto, por 1-2.
Chamada à 1ª equipa
A entrada de Pepe na 1ª equipa do Belenenses foi devida a exigência de Artur José Pereira, primeiro presidente da história do Belenenses, segundo contou Joaquim Dias, também ele um dos sócios fundadores, numa entrevista ao Jornal do Belenenses.
«Artur José Pereira, depois de aturada conversa comigo, na altura tesoureiro do clube, deliberou tomar tal decisão [de incluir o Pepe na 1ª categoria], apesar do receio que tinha em que a massa associativa não gostasse, devido à pouca idade do inesquecível atleta.»
A verdade é que foi mais uma aposta ganha pelo então presidente azul, pois ajudou a formar tantos outros jogadores até finais dos anos 30. Pepe fez 140 jogos, apontou mais de 100 golos com a camisola do Belenenses e da Selecção Nacional.
Análise de Severiano Correia
Não teria mais de 1,70 metros. Pesava pouco. Tinha um corpo franzino. E era conhecido pela sua forma irreverente de estar na vida e em campo. Severiano Correia, antigo treinador, fez há vários anos um retrato das características de Pepe. «Era, de facto, um jogador extraordinário! Irrequieto e franzino, dentro do rectângulo era um elemento que chamava as atenções do público. Chutador por excelência, de uma combatividade extraordinária, constituía perigo para qualquer defesa, por muito valiosa que fosse. Era o menino mimado das gentes de Belém, de tal modo que nem com uma rosa se lhe poderia bater – expressão do seu mestre Artur José Pereira.»
Cinco anos de «show»
Bastaram cinco anos para Pepe contribuir para o crescimento fulgurante do Belenenses. O clube trocou o Campo do Pau do Fio pelas Salésias, Pepe ajudou à conquista de três Campeonatos de Lisboa, em 1926, 1929 e 1930, e num jogo com o Bom Sucesso marcou 10 dos 11 golos – marca jamais alcançada em provas oficiais… Na época de 1931/32 o Belenenses voltou a sagrar-se campeão de Lisboa mas já sem Pepe. Os jogadores homenagearam-no de fumo negro no braço direito.
Rua, baixo-relevo e mausoléu
José Manuel Soares deu nome a uma rua do Restelo. Fica entre o Estado-Maior das Forças Armadas e a Escola Paula Vicente. Foi inaugurada no dia 2 de Abril de 1993. Homero Serpa fez então um discurso que encheu a cerimónia: «Hoje recordamos nesta homenagem do município um futebolista de qualidade. Pepe serviu o futebol com singeleza do rapazinho moldado, desde a infância, pelo árduo trabalho da oficina e pelas precárias condições de vida, representadas bem pela pobreza do almoço que o levou à morte. Lisboa chorou o artista do futebol. Belém foi atingido por inconsolável desgosto, que esteve na base do inconformismo.»
Mas Pepe, além de um mausoléu no Cemitério da Ajuda, tem ainda um baixo-relevo no Estádio do Restelo. Foi inaugurado a 23 de Setembro de 1932 nas Salésias mas depois trazido para o Restelo no dia 23 de Setembro de 1956, onde se mantém. Aliás, ainda hoje, sempre que visita o Belenenses, o FC Porto coloca uma coroa de flores no monumento. Há até quem suponha que a homenagem se deve ao facto de Pepe ter alguma vez jogado pelo FC Porto. Mas não. Trata-se apenas de um eco distante da adoração de que era alvo em todo o país.
O dia em que Lisboa parou
Muito se disse e se escreveu na altura. Acidente, crime e suicídio foram as hipóteses avançadas após a morte. Ao que se sabe nunca foram divulgadas as causas da morte de Pepe. A intoxicação alimentar devido a soda cáustica colocada inadvertidamente pela mãe é o mais provável. A mais badalada, mas surgiram outras correntes.
O crime devido a problemas amorosos e suicídio pelas mesmas razões. Hipótese de crime protagonizado por alguma mulher foi a preferida pelos amantes de romances policiais. O Diário de Notícias, pela mão de Belo Redondo, sugestionou crime como a hipótese mais forte.
O título da peça era cativante: O mistério da dama de luto. E porquê? Pepe tinha uma noiva, a Rosa do Carmo, também conhecida como a Rosinha do Pátio, mas também pode ter tido uma amante. E aqui saltou a hipótese de ter havido mão criminosa. O DN contou como foi na câmara-ardente em Belém.
«Chamava-se Celeste, figura simpática da cidade noctívaga. Tinha paixão pelo Benfica e de vermelho muitas vezes aparecia, de madrugada, na leitaria Martins, na Escola Politécnica. Mais forte fora a paixão por Pepe que vira pela 1ª vez no Portugal – França. E por ele se encantou, pelo Belenenses se apaixonou. Na câmara-ardente sentou-se à esquerda da mãe de Pepe, à direita estava Rosa. Existia entre as duas mulheres um abismo e um mistério», escreve o DN, que conta ainda uma cena de ciúmes quando Rosa quis colocar Celeste fora da sala.
O suicídio foi falado mas Pepe era rapaz cheio de vida e com muita vontade de viver. Hipótese excluída!
Carlos Pinhão deslocou-se, em 1978, a Maputo em serviço de reportagem de A BOLA para entrevistar uma das irmãs de Pepe. Não conseguiu. Falou, então, com Lopes dos Santos, que lhe contou sobre a morte. «A mãe do Pepe, por engano, em vez de deitar na comida sal deitou soda cáustica. A dose maior tomou-a o Pepe. Ele era o menino-bonito da casa e a mãe tirou para ele chouriço da panela. Levou-o no pão para comer, lá no Arsenal. Foi mortal, pois o veneno concentrou-se mais na carne, enquanto o resto da família comeu o caldinho», refere Lopes dos Santos.

O cortejo fúnebre ligou a Rua de Belém ao Cemitério da Ajuda. Milhares de pessoas quiseram homenagear o jovem ídolo. O comércio de Belém fechou, as lojas e janelas colocaram crepes negros e as feições das pessoas eram fechadas, tristes. Belém estava no mais profundo luto. Uma carroça funerária puxada por duas mulas levava Pepe. O cortejo parou minutos à porta da casa da noiva de Pepe, que ficava na Calçada do Galvão. «Lembro-me de me dizerem que quando o Pepe chegou ao cemitério ainda havia gente na zona dos Pastéis de Belém», recorda Humberto Azevedo, que acrescenta: «Foi o maior funeral em Portugal. Ninguém acreditava que tinha morrido o maior símbolo do futebol português.»





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