terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Ocorreu há 50 anos... (IV)


Era uma tarde fria e cinzenta de Janeiro. O F. C. Porto acabara de golear o Oriental, por 5-0. Dorival Yustrich mandou os seus pupilos agradecer ao público o apoio que este lhes tinha dado.

Todos cumpriram a ordem menos Hernâni, que, se calhar por sentir que não haveria razão para tal, teria dito que não estava para alimentar as «palhaçadas» do treinador, com quem mantinha relações frias e fricções ardentes havia muito. E, só, encaminhou-se para o túnel de acesso aos balneários. Yustrich, furibundo, foi em seu encalço. Altercação!

E, de súbito, houve quem se apercebesse de que, daquela vez, entre Hernâni e Yustrich havia mais que uma azeda troca de palavras. O mineiro segurava o avançado pelo pescoço, com o braço esquerdo, socando-o com o punho direito.

Tentava Hernâni desenvencilhar-se da prisão, distribuindo caneladas, e quando conseguiu, enfim, libertar-se da tenaz do braço esquerdo de Yustrich vibrou-lhe um soco, ferindo-o no sobrolho! Já na cabina, o treinador pegou numa balança, tentando dar com ela no jogador que se rebelara contra o seu nepotismo. O dirigente Dias Leite mandou-o sair.

Yustrich foi suspenso das suas funções, sendo de imediato substituído por José Valle, treinador adjunto. E, surpreendentemente, gerou-se solidariedade brasileira no plantel: Osvaldo Silva, Zuca e Lito passeavam-se pelas ruas do Porto à hora em que decorria o primeiro treino depois do incidente. Só Gastão lá fora. Arrepiariam caminho, depois, pedindo desculpa...


Mas Yustrich tinha adeptos vários no Porto, que chegaram mesmo a arregimentar-se no sentido de se manifestarem nas Antas, com cartazes e tarjas e tarjetas com as letras do seu apoio: «Queremos Yustrich».

...E começou a decorrer o inquérito aos incidentes, sob a responsabilidade de Tamagnini Barbosa.

E, de surpresa em surpresa, a 6 de Fevereiro, 15 dias após os incidentes do túnel, a Direcção do F. C. Porto, presidida por Paulo Pombo, levantou a suspensão de Yustrich e de Hernâni, para, mês e meio depois, já na posse dos dados do inquiridor, afastar, definitivamente, Yustrich do cargo de treinador e multar Hernâni em dois meses de subsídio.

No final do desafio com o Sporting de Braga, o seu último jogo como técnico do F. C. Porto, estranhamente ou talvez não, Yustrich percorreu a pista, acenando ao público com um lenço, ante palmas que estrugiam!

E ficaria a saber-se que entre Agosto de 1957 e 31 de Março de 1958 o clube gastara com o ferrabrás mineiro 717 contos, cerca de 90 contos por mês, estando incluídos nesse montante 135 contos de dívidas contraídas por Yustrich quando da sua primeira estada nas Antas.

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